Ressurreição

Maio 23, 2013 § Deixe um comentário

Cambaleamos até a calçada, tão próximos quanto podíamos para nos protegermos tanto mais do frio de uma madrugada que já foi  agitada, barulhenta, ofuscante, abafada e lotada. 3h47 AM. Agora tudo está parado, silencioso, escuro, gelado e vazio. Somente nós dois sentados na calçada enquanto o vento grita. Tudo parece sujo, cru e abandonado. Dormimos um no ombro do outro como crianças de rua. As mãos tão apertadas quanto encardidas. Havíamos sido esquecidos. Quase mortos. Quase vivos. Naquele momento, já não havia mais nada a dizer. Entregues a o que quer que fosse, nos desviamos das possibilidades. A madrugada avança e o sol não nasce, o ônibus não chega, o cansaço não passa, a dor nos pés pisados não ameniza, a minha fome desvairada da sua. Tudo segue um mesmo ritmo de estagnação e necessidade. Nada será o mesmo. Nenhuma palavra. Eu sonho enquanto durmo sentada no concreto duro e frio, a cabeça apoiada no seu ombro e as pernas descuidadas, ansiosas.

O ônibus chega e nós corremos. Dormimos instantaneamente. Meus pés doem tanto que tiro as botas, deixo os dedos repousarem saltados das meias furadas. Em cada espasmo de consciência recobrada, um beijo. É quase desesperadora a ânsia. Chegamos ao ponto. Estou a ponto de vomitar àquilo que sempre esteve engasgado. Nenhum som. As ruas estão amontoadas de lixo e fedor como de praxe… e nada mais. Estou feliz. “É assim, que eu gosto daqui.”, ele diz com a voz tão cansada que não o escuto. Sem pessoas, é assim que ele gosta de qualquer lugar. Eu sou uma ponta do que nele ainda há de interesse externo à si.

Corro para debaixo dos cobertores e desabo. Frio, sono e cansaço. Energias renováveis e infinitas eliminam absolutamente tudo quando ele se volta para mim. Não há mais frio, tiro a roupa. Não há mais sono, o encaro com os olhos abertos. Não há mais cansaço, me agarro com tanta força quanto nunca pensei que poderia à alguém. É o desespero e é a loucura. “Não se esqueça de enlouquecer”, bem, é o que ele sempre diz. Naquele momento, quis me desfazer nele e o faria se soubesse que aquele seria o fim.

Talvez eu não faça parte do seu interesse externo a si. Talvez não por que sinto tão bem ser ele quanto sinto que ele também sou eu quando o é.

Por Constance, constantemente afundada na loucura e naquilo o que não pode deixar de ser.

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Filha e Amante

Abril 18, 2013 § Deixe um comentário

Minha querida, vem, vamos pensar na vida e nas coisas, vamos ser razoáveis até onde a medida do possível nos permite ser presíssimos na sua liberdade. Eu estou aqui há tempo demais e você está lá para vir, mas nada a faz ver onde estão verdadeiramente os seus olhos. Canso fácil. Canso já. Vem aqui, me dá um beijo, me agarra nesses braços pontiagudos. Ah… se você soubesse. Se você soubesse o quanto o seu olhar me fita, se soubesse o quanto o seu abraço me afaga, se soubesse o quanto suas coxas me prendem, me quer todo seu e não me dá nada. Ou me dá coisa demais e quer de volta, deixa aqui vai. Nada há nada que você queira escrever-me que já não tenha dito com aqueles beijinhos, aquelas mãozinhas, aquelas caricias, aquele gemidos e sorrisinhos, e já nem é mais deboche, mas tudo é graça, tudo é graça!

Você vem ou vai, vem aqui, me deixa mais em mim. Tem tanto de mim em ti que quando se vai eu me perco em tudo aquilo o que eu já não mais sou, tudo aquilo o que você se apropriou para ti. Vem em mim nas lágrimas, no espirro, no esporro, vem sempre que quer, vem sempre, vem tanto que eu nem espero e ainda assim, não se faz minha mas me pega todo pra si.

Minha filha e minha amante, vem que eu te quero já, me renova na sua falta de senso, vem pra rir e acaba por chorar, vem abraçar meu braço, ficar no meu encalço, eu te presenteio, te adoro e escarneio, mas é só pra te manter aqui, só pra me manter em você e no seu interesse. Minha filha e amante vem pra eu te abraçar, beijar sua testa, abrir suas pernas, te fazer rir e gritar. Afagar seu cabelo e as suas pernas, apertar suas mãos e os seus seios, beijar sua testa e a sua boca. Minha filha e amante vem pra eu acalmar sua cabecinha histérica, ajudar a organizar suas ideias, acalmar-te das suas faltas, das suas dúvidas, dos seus remorsos. Vem pra eu tirar de você o controle da voz, do peito, de tudo aquilo o que eu posso tocar. Minha filha e amante, vem me falar dos seus meninos de ocasião, apresenta-me todos eles na sua voz de prazer e deboche, ostenta pra mim essa sua liberdade pra logo em seguida se livrar de todos eles e se prender em mim.

Minha menina, menina minha que tem tanto prazer de se fazer minha para os outros e que para mim só se entrega para ganhar. Adorando o prazer de estar onde não pode chegar, se faz toda minha na confiança da sua liberdade, na sua confiança na ferrugem nas minhas correntes em outras pessoas.

Vem à mim e me fala de tudo, dos seus segredos, das suas pessoas, das suas posses, da sua escrita, da sua fala, da sua briga, da sua sensação, da sua cabeleira, das suas amigas, da sua calma, da sua falta de sono, da sua bebida, da sua dor, do seu prazer, dos seus planos, de alguns nossos planos, mas nada nosso se permite levar a série no medo da evidência. Vem à mim e me pede, me pede pra ficar perto, me pede um beijo, me pede um livro, me pede um abraço, me pede um afago, me pede uma piada, me pede um ponto de vista, me pede um convite, me pede uma noite e outro e outro e mais um beijo.

Minha pequena você vem e um dia vai. Vai, mas volta. No seu medo do medo, medo de ter medo de mim, vem pra mim que para ti nada em mim é nocivo. Tudo o que eu quero para ti é estabilidade e o conforto conjunto. Como você mesmo dizia, “nós somos cumplices”, um pedaço um do outro que não pode deixar de ser.

transe

Abril 2, 2013 § Deixe um comentário

Aquilo era um sono, um sono leve, um sono letárgico de primavera em que não se distingue naquilo o que é uma reconstituição mental da realidade. A minha inconsciência muito acordada enquanto eu dormia. Nesse meio termo morno e indistinguível, você vem lento e suave, me larga aonde sua mão leva e eu permaneço pulsando a sensação do toque. Imaginando-o ou dando-o continuidade. Os beijos acabam e os meus lábios continuam abertos, no torpor da sensação do toque, recém recebido como que recém descoberto. É tudo muito lento ou muito invasivo. Gritei, suspirei em silêncio, abafei o silêncio, saliva na sua mão, mas todos os acontecimentos tão sensitivos quanto um cheiro.  Eu nunca soube o que estava acontecendo. A música me elevava ainda para este sentido. Me senti uma memória. Tudo era sobre carne e sentidos. Eu adormecia e acordava para a sensibilidade pura de cada toque. Tudo eram sensações e delírios.  Havia toda a minha suplica e o meu desespero. Beijei-o como se fosse vapor, trocávamos de estado, você desaparecia da minha percepção para voltar como um choque elétrico. Mais uma vez, era tudo sobre carne e sentidos. “Eu não vim preparada para isso”, houve um “disse”. Foi talvez um espasmo de lucidez. Eu não queria que fosse mais invasivo sem estar tão dentro de onde eu nem podia alcançar e você chegava. Eu nem conhecia quem era aquela que o recebia, tão desesperada ou receptiva. Foi um vício e durou uma eternidade. Foi uma restituição e eu perdi tudo. Eu gostaria de morrer ali pra me entregar aquilo que eu conheci como sensibilidade, pureza, absurdo e prazer. E nem mesmo mil orgasmos me levariam de volta aquilo. A música não parava, a palavra “transe” que vem aqui como a mais bela definição de um todo. Eu deixei de existir, de pensar, consegui viver o sentir. Foi uma respiração. Alcance ao etéreo. Mas muito mais do que eu posso dizer.

Para o Personagem de Trás do Balcão

Outubro 22, 2012 § Deixe um comentário

Eu já havia me apaixonado por você muito antes de isso ser possível.
De forma a torná-lo muito mais irreal que a irrealidade revestida pelos meus olhos em lágrimas.
É sempre nublado na minha cabeça.
Corri a língua pelos lábios e fugi com um sorriso de faz-de-conta.
Você não me atraiu, não me afastou… Mas me mostrou os braços abertos.
Eu repousei.
E sem as lágrimas do cansaço, você se tornou mais acessível para os meus sentidos.
De olhos limpos, sua imagem se tornou finalmente nítida o bastante para eu não ver em você o monstro de todos.

Mecanismos Marítimos

Agosto 18, 2012 § Deixe um comentário

1

Existia antes de conhecê-lo
Sentia sua falta por instinto

E o que se parece agora
É um pedaço de imaginação carnal

Que quando me abraça
Escorre por entre meus braços e consciência

Me beija com lábios que não sei se são seus
Ou meus

Existia antes de eu conhecê-lo
E se deixou continuar existindo depois disso

Permanece em Silêncio

Maio 9, 2012 § Deixe um comentário

O sono envolvia. Abriu os olhos, mas teve a sensação de tê-los ainda fechados, pesavam. Olhou para os lados, deitou. Esperou mais alguns segundos antes de pensar naquilo o que viria a seguir. Sua mão se movimentou quase sem poder controlá-la. Tocou-lhe a face com a ponta dos dedos. Lentamente contornou-lhe os lábios, o nariz, as bochechas, as sobrancelhas, a testa, o queixo, mais uma vez os lábios, com os seus. Mergulhou em plenitude e sentiu-se envolvida sem ser abraçada, sorriu. Pronunciou duas ou três palavras, mas não houve voz. Nunca há. Respiravam e sentiam. Tanto sentiam quanto respiravam. Afogados por um mar de tantos outros inconscientes. Ela o perguntou sobre banalidade das coisas. Riam e com um sorriso inventavam qualquer motivo silencioso para permanecerem. Não houve voz quando o disse que tudo aquilo era pretexto. Nunca há e pretextos ou não, permanecem. Respiram e sentem, em silêncio, permanecem.

O sono sempre envolvia, ela o encarou mais uma vez. Suas palavras foram diretas, mas ainda assim não houve voz. Ele sorriu, concordou, descordou, a abraçou. Sentiu-se envolvida sendo abraçada. Sempre a menos de cinco centímetros daquilo o que a falta aproxima. Se preparou para a despedida ficando mais próxima, e tanto ficou pra cá e bem próxima que não se foi. Permaneceram.

Já havia mais motivos para ir embora do que gostaria de contar. Olhou para os lados. Mesmo em silêncio não pode encontrar ainda mais pretextos. Envolveu-o mesmo sabendo todos os riscos, e como precaução não usou os braços. Um último beijo. Se foi, e ainda assim, permaneceu.

(Só para contradizer toda a ideia de sábado)

Cake – Daria

Maio 9, 2012 § Deixe um comentário

When you tried to kiss me
I only bit your tongue
when you tried to get me together
I only came undone
when you tried to tell me
the one for me was you
I was in your mattress back in 1982
Daria, I won’t be soothed
Daria yeah, I won’t soothed
(…)
(Daria  or whoever wants to)

Where Am I?

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