Vivendo o nonsense

Junho 4, 2013 § Deixe um comentário

-Não demore, benzinho, se não você já sabe, pode dar tudo errado…

 

“Estamos todos perdidos. Sinto falta dos resquícios, até mesmo das cores e das palavras. Tudo parecia fazer sentido ao menos naquela época onde diziam que pouco importavam os pecados sórdidos que a nossa gente cismava em prativar. Não vou demorar, estou saindo agora mesmo para que tudo se acerte. Céus, existem dias em que a vida pode parar de acontecer. Estou no automático. Fazendo tudo por fisiologia ou necessidade bruta, nenhum prazer. Estou lambendo as orelhas alheias, nem tenho mais saliva para dizer as coisas que queria dizer de verdade, tudo tão perto de quebrar que escorrega das mãos, da língua, das pernas. Escorrega enquanto ainda está quente. Tão próximo da maldade quanto da irrealidade. Estamos vivendo o nonsense.”

 

-Estou indo meu amor, estou indo. Me espere pro jantar.

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À vontade

Maio 7, 2013 § Deixe um comentário

“Num mundo extremamente desigual e autoritário, superficial e mentiroso, ou você se revolta, ou se suicida. Não há razão para continuar vivendo, Deus não existe – a única saída é a transformação radical do mundo em que se vive. Se não for desta forma, não vale a pena estar vivo. Na verdade, se não for desta forma, de certo modo não se está vivo: se está existindo. Apenas.” Albert Camus.
Em meio a tantas manifestações recentes, eu pergunto seriamente se estamos vivendo por lutas ou lutando pela existência. Me pergunto se dentro da nossa cabeça sabemos de fato quais os ideias pelos quais lutamos e para quê. Resultados individuais ou não. Me pergunto quantas vezes paramos para pensar no efeito antes de gritar a ocorrência de causas. E quando tudo acabar? E quando vencer-se a guerra? Qual a remuneração que te espera? Qual a cura que seu grita por? Mais dinheiro? Mais igualdade? Mais chances de ostentar insolência? Um mundo inteiro feito de heterossexuais? O fim do consumo de carne? Mais educação? Só o que eu peço para esse mundo é um pouco mais de vontade, um pouco mais de sensibilidade para com os próprios desejos que tantas vezes se tornam o eco de um grito de outra pessoa repetido por milhares que o defendem apaixonadamente sem noção da sua própria condição. E que haja vontade, que haja dor e luta para todos aqueles que realmente queiram lutar, pois a vontade é a única coisa capaz de fazer o ser humano se mover nem que seja do sofá para ir pegar o controle da televisão pela vontade de trocar de canal. Qual é a vontade que verdadeiramente lhe inspira? Para desejar é preciso ser, ser o Eu do eu e para isso é necessário sensibilidade e força da própria existência e ainda manifestá-la. É cansativo, é pesado, é indignante e cruel, mas libertador.

Ode à Henry Miller

Abril 17, 2013 § 4 comentários

H. Miller et moi

Em tempos como estes que por uma questão de proteção ou de ataque bruto necessitamos nos agarrar a alguma crença para nos sentirmos vivos, eu decidi me agarrar a um deus terreno e muito maior que todos aqueles que já foram citados. Um deus pessoal? Um deus pessoal para mim. Pessoalíssimo.

A verdade encarnada, os sentidos, as sensações os sentimentos, as vontades e até mesmo a loucura e o prazer entregues à ele sem nenhuma pretensão se não almejá-lo inclinada.

São tempos difíceis para qualquer um que tente sentir de verdade. São tempos difíceis para os ultra sensíveis de tato e de intelecto. São tempos difíceis dentro de tudo aquilo o que se pode, de fato, acreditar com fervor. São tempos difíceis para aqueles que sonham com a liberdade e o manifesto dela e só dela. São tempos difíceis para aqueles que buscam a verdade naqueles que vivem de mentiras.

Me deito aos pés do meu deus por ocasião e sentido e com isso o beijo, me entrego completamente e seria capaz de dispensar-lhe minhas entranhas somente como agradecimento. Céus e mais uma vez eu penso, volto a você como uma manifestação escrita de tudo o que o tudo pode ser e não existem limites, nada à altura. Eu seria capaz de dispensar-lhe os meus pulmões, útero e unhas somente como agradecimento.

Toda a necessidade saciada pela manifestação da falta. Ele me espanca com palavras e luz.

Henry Miller, muito mais que uma descoberta literária. A cada frase que leio, eu choro, a cada parágrafo esperneio e a cada página me descontrolo. Ele é um espasmo vivo daquilo o que é impossível ser manifestado. E nenhuma descrição poderia ser mais específica para deus.

Henry Miller, aqueles que o chamam de pornógrafo são simplesmente insensíveis, o que ele escreve é tão grande, tão intenso, tão intrínseco que na debilidade de compreende-lo absorvem somente as palavras que lhes vêm à mente como místicas numa obscenidade infantil, o que pode ser mais natural que o sexo quando se deve falar sobre as coisas vivas? Quando tudo aquilo pelo o que se fala são sentidos, vida e dor?

Me agarro a necessidade da adoração deste deus que me completa, me representa, me corresponde, me liberta e me sensibiliza. Me agarro a adoração deste deus agora já invisível e inalcançável. Deste deus num delírio. Deste deus físico tanto quanto eu sou, pois é exatamente aqui onde todos eles estão e nada mais além disso o torna especialmente um deus. O meu deus pessoal. Pessoalíssimo.

O Deus do Eu

Outubro 17, 2012 § Deixe um comentário

A religião muitas vezes nos fala de um deus que cria o universo, cria as pessoas do nada, dá-lhes uma razão de viver, as pune quando crê necessário, da mesma forma como as presenteia. Um deus cujo controle da realidade é absoluto e pleno. Um deus que está em todos os lugares a todo o tempo e sabe de todos os segredos mais profundos e secretos. Um deus misericordioso e por vezes, extremamente cruel e impetuoso. Um deus cujo mundo coordena à sua vontade, aos seus modos, a sua forma. Um deus do certo e errado. Um deus solitário, no total altruísmo da sua relação com os demais, se faz ser mais importante e relevante, um completo egoísta. Ora, sou deus. Pois crio e não vejo uma só característica acima da qual não seja partidária. Crio universos, rejo consciências e destinos. Estabeleço por mim as noções de certo e errado. Estou em todos os lugares, em todas as descrições, a todo o tempo. Me considero excelentíssima e o melhor de mim mesmo, numa posição que pode-se considerar, hm, de um modo ou de outro, altruísta. E principalmente sou eu e somente eu quem escrevo “fim” na última página daquilo o que crio.
Se existe um deus, ele está na terra e anda entre nós. Sabe tanto quanto nós e o é deus justamente por que, ainda que nessa condição, ele cria, move, e altera tudo aquilo o que é metafísico e espiritual nas pessoas com quem têm contato.
De mim para mim, e para todos aqueles que sentem, eu sou deus, que por inspiração e contato com demais deuses, me auto-considero única.

Intenso Diálogo

Setembro 29, 2012 § Deixe um comentário

-não vou poder…

-então eu falei pra ela…

-você nem acredita o que eu

-aquela, sabe?

-aí sim ein…

-mas não tinha nada, nada mesmo que…

-pelo o que eu saiba, não te…

-às vezes, por que nem….

Meus mais intensos diálogos se passam sempre na multidão.

-esperando que nós…

-na empresa certa e com…

-eu bateria nela…

-eu também te amo…

-olha lá! olha!

Auto-absolvição como Auto-destruição

Setembro 28, 2012 § Deixe um comentário

Toda a realidade é muito real e por isso não passa de uma mentira extremamente óbvia, escancarada e incrível. Me sinto cansado, humilhado por mim mesmo por ainda me deixar estar vivo. É uma mistura de repugnância e auto-consolo, não me deixo existir um sem o outro. É uma maneira branda de dizer o quanto eu gostaria de não existir e só existo para ver as coisas que me fazem querer não existir. No final do corredor, eu sempre me deparo comigo mesmo, embora a minha volta haja uma série incontável de pessoas, todas elas com os pretextos mais absurdos contra mim de mim mesmo. 

Trecho de Atmosfera

Por Constance, constantemente em crítica situação pessoal para continuar escrevendo.

Diferente Igual a Todos os Outros

Setembro 22, 2012 § Deixe um comentário

7

Telefone azul. Minha voz picotada devido à má qualidade do sinal, eu digo:

“Você vem?”

“Não.”

Uma pausa.

“Não. Eu acho que hoje não.”

Penduro as coisas mais importantes no cabide, me deito no sofá. A companhia toca.

“Oi”- ela diz.

“Trouxe o que eu te pedi?”

“Eu disse que não viria hoje.”

“Trouxe o que eu te pedi?”

Um relacionamento baseado mais uma vez na subjetividade das coisas mais óbvias.

Where Am I?

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