Do lado de fora

Julho 4, 2012 § 1 Comentário

Espero até o último segundo e quando já não aguento mais, faço de tudo para trazê-la de volta ao lugar de onde nunca saiu. As ruas estão quentes, abafadas, vivas! Você anda de lá para cá, mas sempre de volta. A cama está quente, o som está alto, os passos, os sussurros, as moças. Suspiro, aliviado, ouvindo a todas aquelas historias que me fizeram voar, eu encontro uma nova forma de sair daqui quando já não posso, a respiração que de alguma forma me deixa, vai ficando cada vez mais escassa antes de toda a euforia que a acelera. Tocam os sinos. Escuto vez por vez as palavras que me mantêm nessa cama de hospital, sentindo o cheiro dos sonhos das histórias tão vivas quanto podem ser do lado de fora da janela. Suspiro, aliviado. Mais uma vez, fecho os olhos procurando uma nova forma de sair daqui quando já não posso. Ela vem e vai, mas sempre volta à minha cama de hospital.

(Um Conto Por Música:  Forks and Knives (La Fête), The Flyind Club Cup, BEIRUT)

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O Julgamento

Junho 14, 2012 § Deixe um comentário

Como se fosse um dia remoto, nós acreditamos em todos os conceitos que já tanto estabeleceram. Unido-nos uns aos outros por tentativas de felicidade. Estou sob julgamento: “você é feliz?” Eu poderia ficar pelo fato de acreditar neles, embora não sinta. Eu tento, eu juro, tento… vamos tentar afundando cada vez mais na areia movediça da nossa obstinação forçada. Partimos pelas luzes sempre nas temporadas, unindo-nos um ao outro para chorar nossas dores, noite impraticável num amontoado de saudades, eu sinto! Ah, sentimos saudades das nossas dores de tanto forçar a felicidade nos outros que não encontramos nunca. Volto mais uma vez, criança crescida, é o que eu tenho de ser. Estou sob julgamento, mais uma vez: “você é feliz?”. É importante que sejamos, é no mínimo importante que façamos tudo para sê-lo, é o que sempre dizem… Mas mais uma vez me uno a você para chorar minhas dores, me uno a você para não sumir sozinha. Nossos pais lamentam esse dia, mas mais uma vez partimos pelas luzes sempre na temporada. Posso sofrer todas as dores à luz das temporadas.

(Um Conto Por Música: The Penalty, The Flyind Club Cup, BEIRUT)

Antagonismo Mútuo

Junho 7, 2012 § Deixe um comentário

Sentou-se na cadeira vazia à sua frente. Sabia que seria ocupada por uma das garotas de sempre que a acompanhava caso não o fizesse rápido e como se caísse ali por acidente, encenou uma exaustão que existia psicologicamente para que ficasse explicita. Ela sorria com os olhos brilhantes de sempre, eram quase monótonos, decididamente eram monótonos.

–Está tudo bem? – perguntou com a voz letárgica quase tão monótona quanto seus olhares.

–Estou exausto. Não aguento mais… simplesmente. – finalizou para ser interrogado. Deixando a cabeça apoiada nas mãos, olhava para baixo, tudo para que quando a encarasse mais uma vez, seus olhares se encontrassem de forma marcante. Queria enfeitiçá-la e poderia se soubesse como.

–O que houve? – interrogou. O brilho monótono no seu olhar passou a ser mais intenso.

–Eu simplesmente… – pausou dramaticamente para levantar a cabeça, encontrando o olhar direto da garota – odeio esse lugar, essas roupas… por que usam essas roupas?! Eu simplesmente… odeio esses garotos afundando no ridículo, físico demais, ricos correndo para os seus carros… todos os que estão desesperados demais por atenção para se olharem no espelho. Os que estão na sala ao lado e os que preenchem as listas de interesse… e você sabe por que preenchem? Bem, isso é o tipo de coisa que me faz querer sumir. Vamos fugir juntos… Isso sem contar as garotas, – riu, deixando claro que definitivamente, ela não se encontrava nessa categoria, embora suas amigas, sim, e naquele momento, ela se entrega, encantada –. Um dia você fala tanto sobre aquilo o que nunca será e de tanto falar acaba se tornando exatamente aquilo o que tanto critica. Eu tenho essa noção e por isso não vou me deixar acontecer. Eu nunca vou ser nada daquilo… eu definitivamente odeio… tudo! … por aqui.

Com um riso nem aberto nem só um sorriso, com um riso monótono, ela menciona quase como uma respiração, em palavras baixas e levianas…

–…eu adoro ficar longe daqui…se eu pudesse sair daqui agora… eu teria uma vida feliz se pudesse viajar para longe…

-Vamos sumir juntos? Vamos… sumir para sempre?

(Um Conto Por Música: Dark Of Matiée, Fade Together, This Boy; Franz Ferdinand, FRANZ FERDINAND)

Enfermidade Mútua

Maio 29, 2012 § Deixe um comentário

Eu vi nos seus olhos a tristeza indomável de uma doença inconsciente, por mil vezes eu tentei avisá-la, mas os seus sonhos a mantinham longe demais de qualquer desvio para a felicidade. Tão enfermo quanto você, pela sua falta, eu choro. Refugio-me nos sonoros melancólicos, tocando até a morte chegar, canto alto, até encontrar a melodia que te fará voltar, até encontrar a melodia que te tirará da cama dele, até encontrar a melodia que a trará de volta para os meus braços cansados. Ateio fogo nos departamentos do pensável, mais uma vez tento me refugiar fugindo, sem deixar nada para trás, mas sem você não posso carregar tudo daqui sozinho. Percorri milhas à sua lembrança, cantei, sobre as paredes de casa, cantei sobre as garrafas de vinho que deixamos no peitoril da janela, cantei sobre os anos que passam e doença que culmina, enquanto você envelhece triste. E, meu amor, o inverno que chega, oh frio que está próximo!

(Um Conto Por Música: Cliquot, The Flyind Club Cup, BEIRUT)

Os Subúrbios

Maio 25, 2012 § Deixe um comentário

Os sons que levam à loucura daqueles que belamente encaminham-se à perdição, numa roda rodeada de rédeas soltas, dançam. É meia-noite e naquela ruazinha fria, alguns choram, outros dançam, alguns suspiram, outros ainda se cansam, se deixam cansar pelos passos de dança. É meia noite e naquela ruazinha fria, os mais cautelosos com passos curtos e sombras altas se deixam levar pela pequena orquestra: um acordeão, um pianinho no máximo, os velhos que tocam para esquecer o frio, os jovens que dançam para se esquentar. Ele, então, levantou as sobrancelhas, oh! O estupor! A noite dos pobres.

(Um Conto Por Música: La Banileue, The Flyind Club Cup, BEIRUT)

Para Onde Vão Todas as Coisas

Maio 23, 2012 § Deixe um comentário

Com um sorriso curto nos lábios eu me despedi de todas as minhas promessas. Procurei ser sincero mesmo enquanto sorria, mesmo enquanto dizia adeus. O seu pavor, esplendor ou horror foi um baque e eu pude ouvir de longe, mesmo ainda não aberta a porta da saída, a queda. E penso, me lembro, relembro de todas as preces, do meu coração; para onde vão todas as coisas quando elas morrem? Para onde vão… Os meus sentimentos, oh, todos os suspiros formam o vento no meu cabelo, uma nevoada fria que arrasta as minhas lágrimas, uma inundação dentro das… para onde vão todas as coisas? E por todo esse tempo, enquanto, eu sei, você esperava, era em seu rosto onde o vento batia, a nevoada que arrasta as lágrimas, eu não estava lá. Naquela igreja, no final da escada, eu te esperava inalcançável, no tempo certo, suas condenações, minhas correções feitas. Esperei até o momento certo em que você não queria mais estar lá, suas condenações, minhas correções feitas. Para onde vão todas as coisas?

(Um Conto Por Música: Guyamas Sonora, The Flyind Club Cup, BEIRUT)

Uma Milha por Riso

Maio 20, 2012 § Deixe um comentário

Por três dias deitado, quando levantou sentiu as dores expiradas. Soluçou, mas não houve lágrimas, não mais. Envolto em calor, caminhou, continuou, e andou descalço em passos lentos pelas ruas frias, diretamente em rumo a lugar nenhum, encontrou: o nada existencial que tanto o enriquecia. Sorriu, sorria, sorriria sempre que fosse domingo e andando lento e descalço, envolto em calor, envolveu aquela que amava e com o mesmo calor, mas o calor dos seus braços. Rodeado pela célebre estação, o outono passa e transpassa, mas o verão do sol e seus incautos amores o mergulham na sua canção sorrindo, tropeçante, caminha uma milha por riso. Abandonou as dores e delas decidiu guardar apenas os finais, onde em uma igrejinha pintada de branco, os enterrou e rezou pela célebre despedida. Beijou sua amada mais uma vez, sorriu, foi beijado pelo sol, e no ósculo permaneceu até o cair da noite, andando tropeçante, uma milha por riso, cantava. Até o fim dos seus dias, até voltar à pequena igreja pintada de branco, uma milha por riso.

(Um Conto Por Música: A Sunday Smile, The Flyind Club Cup, BEIRUT)

Where Am I?

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