Vivendo o nonsense

Junho 4, 2013 § Deixe um comentário

-Não demore, benzinho, se não você já sabe, pode dar tudo errado…

 

“Estamos todos perdidos. Sinto falta dos resquícios, até mesmo das cores e das palavras. Tudo parecia fazer sentido ao menos naquela época onde diziam que pouco importavam os pecados sórdidos que a nossa gente cismava em prativar. Não vou demorar, estou saindo agora mesmo para que tudo se acerte. Céus, existem dias em que a vida pode parar de acontecer. Estou no automático. Fazendo tudo por fisiologia ou necessidade bruta, nenhum prazer. Estou lambendo as orelhas alheias, nem tenho mais saliva para dizer as coisas que queria dizer de verdade, tudo tão perto de quebrar que escorrega das mãos, da língua, das pernas. Escorrega enquanto ainda está quente. Tão próximo da maldade quanto da irrealidade. Estamos vivendo o nonsense.”

 

-Estou indo meu amor, estou indo. Me espere pro jantar.

O Cansaço do Eu

Maio 31, 2013 § Deixe um comentário

Estou cansada, cansada, triste, fraca, pesada. Me arrastando pelas estações que já foram tantas vezes. Talvez seja o frio. Talvez seja a estagnação. Talvez seja a doença. Meus pés doem. Talvez seja hora de partir, eles dizem. É preciso. Tenho tantas preces e nenhum deus para atendê-las. Tenho tanta pressa e nenhum lugar para chegar. Ainda fico desesperada quando tudo se esvai. Assisto minha própria morte nos dias que passam com uma calmaria tamanha que beira ao tédio.

No meu corpo já haviam tantas feridas quanto é possível. Carcaça sobressalente. Continuei andando, me arrastando por onde eu me perdia de mim aos pedaços. Estava tão triste e tão pequena que comecei a rachar. A chuva começa a despencar das perolas. Estamos perdidos, eu sempre dizia para mim mesma. Não sei se consigo respirar. Tinha mais motivos para ceder que pra desistir.

Nos despedimos enquanto me atacavam as dores estomacais. Senti cheiro de terra, cheiro de fumaça e de cabelo. Foram mais dolorosas as suas dores do que eu pode imaginar. “Você não vai levar nada a sério enquanto se sentir segura no outro que se faz de ti”. É só mais uma repetição monótona do meu estomago dolorido. Vêm de todos os lados. Eu podia ver mais felicidade, mas a tranquilidade que me foi posta me impede.

Pensei em me mudar para um floresta. Um ninho de solidão e paz. Gravetos e frutas. Pelos e chuvas fortes. Pensei em ficar onde estou, estagnar, manter, preservar. Sem ir, sem ficar, me locomovo em mim pela necessidade e pelo impedimento. Eu não faço a menor ideia de quem eu sou. Me procuro nos outros e tento salvá-los até me cansar desse pedaço de mim que vejo neles. Estou mancando. Estou tão triste que vou no colo. Estou tão confortável que me esqueço. As últimas promessas já morreram.

Ressurreição

Maio 23, 2013 § Deixe um comentário

Cambaleamos até a calçada, tão próximos quanto podíamos para nos protegermos tanto mais do frio de uma madrugada que já foi  agitada, barulhenta, ofuscante, abafada e lotada. 3h47 AM. Agora tudo está parado, silencioso, escuro, gelado e vazio. Somente nós dois sentados na calçada enquanto o vento grita. Tudo parece sujo, cru e abandonado. Dormimos um no ombro do outro como crianças de rua. As mãos tão apertadas quanto encardidas. Havíamos sido esquecidos. Quase mortos. Quase vivos. Naquele momento, já não havia mais nada a dizer. Entregues a o que quer que fosse, nos desviamos das possibilidades. A madrugada avança e o sol não nasce, o ônibus não chega, o cansaço não passa, a dor nos pés pisados não ameniza, a minha fome desvairada da sua. Tudo segue um mesmo ritmo de estagnação e necessidade. Nada será o mesmo. Nenhuma palavra. Eu sonho enquanto durmo sentada no concreto duro e frio, a cabeça apoiada no seu ombro e as pernas descuidadas, ansiosas.

O ônibus chega e nós corremos. Dormimos instantaneamente. Meus pés doem tanto que tiro as botas, deixo os dedos repousarem saltados das meias furadas. Em cada espasmo de consciência recobrada, um beijo. É quase desesperadora a ânsia. Chegamos ao ponto. Estou a ponto de vomitar àquilo que sempre esteve engasgado. Nenhum som. As ruas estão amontoadas de lixo e fedor como de praxe… e nada mais. Estou feliz. “É assim, que eu gosto daqui.”, ele diz com a voz tão cansada que não o escuto. Sem pessoas, é assim que ele gosta de qualquer lugar. Eu sou uma ponta do que nele ainda há de interesse externo à si.

Corro para debaixo dos cobertores e desabo. Frio, sono e cansaço. Energias renováveis e infinitas eliminam absolutamente tudo quando ele se volta para mim. Não há mais frio, tiro a roupa. Não há mais sono, o encaro com os olhos abertos. Não há mais cansaço, me agarro com tanta força quanto nunca pensei que poderia à alguém. É o desespero e é a loucura. “Não se esqueça de enlouquecer”, bem, é o que ele sempre diz. Naquele momento, quis me desfazer nele e o faria se soubesse que aquele seria o fim.

Talvez eu não faça parte do seu interesse externo a si. Talvez não por que sinto tão bem ser ele quanto sinto que ele também sou eu quando o é.

Por Constance, constantemente afundada na loucura e naquilo o que não pode deixar de ser.

Por um Isqueiro

Maio 10, 2013 § 3 comentários

“Como está frio nesses últimos dias, minha pele não foi feita pra isso, minha pele não foi feita pra suportar nada, ela é toda sensível, vulnerável, crua, estável como uma respiração. Esse frio todo me deixa enjoada, me deixa distante, sem vontades, sem cura. Minha voz picota, e falharia ainda mais se eu quisesse, de fato, falar alguma coisa. E para quem? Não, não é o frio. Não é o vento. É a falta. Talvez a falta de mim em mim e um pouco mais, perdi o foco. Saí de casa com um blusa pouca e um livro, alguns cigarros e pés lentos. Voltei de um caminho e refiz a outro, virei numa esquina estranha, lugar fora do meu comum, sem benefícios, sem nem mesmo entretenimento inútil pra distrair os olhos, nada menos que nada e pra esse mesmo nada eu ia.

“Como se nada no mundo fosse capaz de conter a minha contenção, me sentei. Olhei para os lados, o suspeito de um crime bárbaro. Ele fuma. Olho na bolsa, o isqueiro amarelo tintila sob os meus olhos. Caminho lentamente. Me empresta o isqueiro?. Ele tira do bolso uma caixa de fósforos. É um teste. Você sabe acender um cigarro com fósforos nesse vento de Maio? Acendo. Obrigada! Ninguém parece fumar por aqui, que bom que eu te achei. O isqueiro continua na bolsa de ombro. As pessoas fumam sim, só que mais à noite. Ah… eu não costumo vir aqui à noite, mas o que você faz por aqui? Vou encontrar com alguém… preciso dar uma grana pra ele. Ah, então ele vem! Ha. As pessoas são tão filhas da puta comigo que me dão fora até quando é pra receber dinheiro! Dou mais uma risadinha. Você bebe? Ele perguntou, tão espontâneo. Respondi que sim agradecendo àquela caminhadinha impensada que já me trouxera alguns goles e algumas palavras.

“Comprou vinho. Andávamos com a mesma naturalidade com a qual contávamos nossos segredos um para o outro. Escurece e nos sentamos em algum lugar. As mãos vacilam de frio e pelo contato. Confessamos-nos um ao outro com o receio da recém descoberta e com o prazer do alívio reciproco. Seus olhos me pedem um beijo. A vulnerabilidade vestida em ebriedade, anarquia e catarros me encantam. Tanta grosseria para ocultar o mais sensível espírito.  Essa é verdade. O beijo e ele beija mais uma vez o beijo que lhe foi dado. Me sinto feliz pelas possibilidades. Ele exalta a sua conquista em si. Não esperava aquela dose de felicidade tão bem aplicada. Como se um pequeno amor nascesse através das vistas cansadas. Como se a dor tivesse sido levada com o vento e sido esquecida pela bebida. Dançamos nos corpos dos mortos tristes. Não para compartilhar à felicidade que vem como memórias já um dia após as comemorações dolorosas de beijos e partida. Espera já pelo próximo.”

The Bunker

And we shall hide together here
Underneath the bunkers in the row
I have water, i have rum
Wait for dawn and dawn shall come
Underneath the bunkers in the row
And we shall hide together here
Underneath the bunkers in the row

Diferente Igual a Todos os Outros

Maio 8, 2013 § Deixe um comentário

8

“Estou vendo um impasse no nosso relacionamento.”

“Só um?” – pergunto, é retórico, mas lhe dou a resposta apenas para lhe mostrar o meu interesse. – “Eu vejo dois…” – mais uma pausa. – “nós dois.”

“Eu estou terminando tudo.”

“Boa forma de reater. Pelo menos para mim o problema está resolvido.”

Existe alguma coisa de maravilhoso naqueles que um dia vieram se declarar e hoje nos desprezam…

A Prostituta e o Empresário

Abril 11, 2013 § Deixe um comentário

“Você deveria ter um pouco mais de respeito com o meu desprezo, meu bem. Sabe que o que tenho que fazer é por uma mera questão financeira. O trabalho é bem remunerado por que é bem feito e não é fácil.”

“Não é difícil ser puta. Qualquer uma quer dar para alguém, é só uma questão de conveniência. Você dá por dinheiro e uma outra por qualquer outra coisa. Não me venha com esse papo de ‘só eu faço isso’.”

“Mas meu querido, o problema está na demanda e não nos meus interesses!”

“Você tem uma espécie de meta pra bater?”

“Quase isso… Se for com acréscimos, essas coisas que dão mais dinheiro, então eu posso me dar ao luxo de evitar um cliente… negócios. Você fala de promoções e impostos eu falo de uma vagina dilatada. Mas afinal, você vai querer?”

“Você tem um cafetão?”

“Não, é… sim, é tipo isso. Você tem um superior, mas não quer ter que chama-lo de chefe, né?”

“Então, como é? Você ganha salário? Ou é tipo… porcentagem…”

“Eu tenho uma série de benefícios, ganho isso por fora.”

“Que tipo de benefício? 13º? Auxilio transporta? Vale alimentação?”

“Não confunda as profissões, meu bem… eu tenho aquilo o que vocês devem chamar de… ajuda de custo.”

“O que?”

“Absorvente, cama, espermicida, camisinha e anticoncepcional de graça.”

“Mas isso não é… nada.”

“Meu bem, não confunda as profissões. A pior parte mesmo é esse salto.”

“Você não disse que era uma profissão difícil? Há…”

“Sim, e o mais difícil é esse salto.”

“Ele faz parte dos benefícios?”

“Sim, já que a única ocasião onde podemos usá-lo é no trabalho…”

“Na minha empresa as mulheres só podem usar roupas e sapatos sociais, mas não são um ‘benefício’ pra elas… quer dizer, nós não pagamos isso pra elas…”

“É por isso que eu sou puta… Aliás, acabaram os seus 15 minutos, meu bem, são 120 reais.”

“Mas… não! Eu não te comi!”

“Cada um usa os seus 15 minutos como quer… cada um e a sua curiosidade… até onde não fere o meu ego eu procuro não me pronunciar.”

“Mas… não!”

“Olha, eu sou só um produto. Como as máquinas que a sua empresa vende, foda-se se você pegou um micro-ondas pra usar de peso pra porta ou se cozinhar nele, tem que pagar…”

“Ah, e você vai chamar o que, o procon?”

“Meu bem… unf… quantas vezes eu vou ter que falar? Não confunda as profissões…”

(Trecho resumido e com cortes de Atmosfera)

transe

Abril 2, 2013 § Deixe um comentário

Aquilo era um sono, um sono leve, um sono letárgico de primavera em que não se distingue naquilo o que é uma reconstituição mental da realidade. A minha inconsciência muito acordada enquanto eu dormia. Nesse meio termo morno e indistinguível, você vem lento e suave, me larga aonde sua mão leva e eu permaneço pulsando a sensação do toque. Imaginando-o ou dando-o continuidade. Os beijos acabam e os meus lábios continuam abertos, no torpor da sensação do toque, recém recebido como que recém descoberto. É tudo muito lento ou muito invasivo. Gritei, suspirei em silêncio, abafei o silêncio, saliva na sua mão, mas todos os acontecimentos tão sensitivos quanto um cheiro.  Eu nunca soube o que estava acontecendo. A música me elevava ainda para este sentido. Me senti uma memória. Tudo era sobre carne e sentidos. Eu adormecia e acordava para a sensibilidade pura de cada toque. Tudo eram sensações e delírios.  Havia toda a minha suplica e o meu desespero. Beijei-o como se fosse vapor, trocávamos de estado, você desaparecia da minha percepção para voltar como um choque elétrico. Mais uma vez, era tudo sobre carne e sentidos. “Eu não vim preparada para isso”, houve um “disse”. Foi talvez um espasmo de lucidez. Eu não queria que fosse mais invasivo sem estar tão dentro de onde eu nem podia alcançar e você chegava. Eu nem conhecia quem era aquela que o recebia, tão desesperada ou receptiva. Foi um vício e durou uma eternidade. Foi uma restituição e eu perdi tudo. Eu gostaria de morrer ali pra me entregar aquilo que eu conheci como sensibilidade, pureza, absurdo e prazer. E nem mesmo mil orgasmos me levariam de volta aquilo. A música não parava, a palavra “transe” que vem aqui como a mais bela definição de um todo. Eu deixei de existir, de pensar, consegui viver o sentir. Foi uma respiração. Alcance ao etéreo. Mas muito mais do que eu posso dizer.

Where Am I?

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