Um novo eu

Julho 29, 2013 § Deixe um comentário

“Por que de repente você passa a se tornar muito mais aquilo o que você representa do que aquilo o que você realmente é.”  E nessa divagação eu tracei todos os paralelos possíveis para relacionar as pessoas a minha volta e aquilo o que elas eram para mim representativamente. Tarefa fácil. Um monte de gente para mim existe muito facilmente na função prática daquilo o que me representam: um casa por perto com comida, cama, chuveiro quente, desenhos e jogos (oh, jogos de todos os mais simplórios tipos!), onde eu posso me refugiar quando os ares pessoais não são bons. Um porre fácil, cigarros e a violência decadente que me faz parecer inalcançável. Boas fodas, conforto, segurança, proteção e risadas dementes. E muito embora às vezes eu tenha que pagar caro por isso como recebendo uma chupada nojenta no peito ou uma declaração idiota, eu continuo achando engraçada a forma como me relaciono com essas representatividades para me sentir melhor, evidenciando pra mim mesma o segredo de que eu sei que tudo daquilo não passa de uma necessidade supérflua com a qual interajo.  A coisa complicou mesmo quando me perguntei a mim mesma o que eu era naquilo o que eu representava para mim mesma e me deparei com uma série de próteses daqueles a quem eu tantas vezes já me comparei pela diferença. Me desesperei e tentei amputar todas aquelas partes macabras que habitavam o meu corpo e o meu “ser”, se arrastando e sangrando por onde quer que eu fosse. Tá tudo mal arrancado, eu sei onde deve sair, mas não sei como tirar e se antes o meu equilíbrio era perfeito, agora eu mal sei andar, tropeçando com essas pernas sobressalentes e que só agora nesse sem/com eu consigo enxergar o quanto me são necessárias. Esse agora sou um novo eu, um eu nem sem nem com, um eu que esbarra em tudo o que anda, que carrega os braços dos outros e tenta costurar os próprios de volta no corpo.  Quem me dera eu voltasse a ignorância habitual de ser sozinha. Vivendo nos outros sem pensar viver deles. Mas está tudo bem, está tudo bem enquanto eu não tiver vontade de ser eu mesma naquele velho ou novo eu que eu venho habitando há séculos. Dentro dessa consciência de ser alguma coisa eu estou sozinha e bem, ninguém vive com quarto braços, a gente arranca dois e quando começarem a feder é só tirar de novo. Eu como eu, continuo tentando não fazer necessárias essas partes que vêm de fora e me fazem esbarrar em tudo aquilo o que poderia ser um caminho retilíneo sem obstáculos. Fico esperando aquele dedãozinho do pé que já foi de alguém e que agora é uma parte em mim me sustente no próximo passo, mas a unha encravada não deixa e lá estou eu caindo de novo.  Talvez a vida seja isso, tropeços, próteses e unhas encravadas, fodas horríveis, fodas maravilhosas, bebidas baratas, vontade de fugir de si sendo os outros, desespero, sorrisos dementes e necessidades supérfluas cheias de interação teatral, mas a consciência de um novo eu amputado é sempre horrível quando até mesmo aquela perna que não existe mais continua coçando.

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