Um Conto Por Música – Adeus Você Parte 1

Setembro 5, 2011 § 3 comentários

Felipe começa o dia às 4h30 da manhã. Toma banho, se troca, come. Só Deus sabe como é a Avenida Paulista a essa hora. Melissa se mexe na cama, solta um gemido, chama por ele, ele a responde com um beijo, ela sorri e volta a dormir enquanto ele sai porta a fora, rumo o seu dia exaustivo, estressante, maçante. Mas está tudo bem, quando voltasse, ela estaria ali, o seu amor, a sua pequena, a sua querida.

Chega ao trabalho, odiava fazer aquilo, fazia por que dava dinheiro e muito, tinha cérebro para exatas, mas não suportava ter de fazê-lo. “Falta pouco, mais um ano, no máximo, e eu poderei finalmente fazer a faculdade de arqueologia.” Felipe, muita inteligência, pouco dinheiro. Muitas foram as crises existenciais, tinha o interesse, tinha a inteligência, tinha o empenho e todo o resto, mas isso não importa. O cara com grana que está se fudendo para matéria, que vai até a USP pela maconha e pelas festas tem mais direito de cursar do que ele. Por fim fez um curso técnico de ciências contábeis, entrou como estagiário numa empresa, foi efetivado e em oito meses se tornou supervisor da sua área. Gastava apenas o essencial, todo o restante guardava, sonhando com o dia em que pudesse começar História, dali, arqueologia seria um passo. Trabalharia por um ano, juntaria uma grana pra se bancar enquanto fizesse a faculdade. Ao contrário de qualquer exata, humanas, principalmente História, só tem espaço no mercado de trabalho com experiência e certificado.

Talvez fosse pelo serviço que exercia, mas a vida de Felipe seguida dessa forma bem sistemática, organizada e tudo aquilo estava indo bem do lado de fora, mesmo que por dentro ele entrasseem colapso. Odiavao emprego, não via mais razão para continuá-lo, o corpo doía, o desconforto o matava, o stress, a tristeza, a solidão. O desconforto o impedia de ver com bons olhos qualquer um dos seus colegas de trabalho – únicas pessoas com quem mantinha contato. Ou estava em casa, ou estava no escritório.

E foi numa terça-feira, tremendo pelo impulso de pegar um cigarro, mas sua empresa não tolerava fumantes. Estava decidido, chegaria ao escritório, arrumaria suas coisas e voltaria pra casa, veria o que faria depois, não queria pisar naquele prédio novamente. Olhou no relógio de pulso, eram 6h57, tinha que chegar a Bela Vista às 7h30, ainda estava na Vila Prudente, entrou no metrô correndo. Se ia se demitir porque ainda se preocupava em chegar na hora? Olhou para os lados, como sempre aquele trem novo fedia, se sentou num lugar vazio ao lado de uma mocinha pequena, de cabelos castanhos e pele muito clara. Ela era delicada em cada parte do seu corpo, suas feições e gestos. O encantou. Ele virou para o lado, olhou no relógio novamente, não tinha cabeça pra pensar numa menina que não conhecia e… Felipe abaixou a cabeça, apoiando-a nas mãos, queria desistir de tudo o tempo todo, não podia viver na expectativa de um amanhã sem futuro, e o amanhã que respingava alguma expectativa estava distante demais.

De repente o trem para. É anunciado: “Senhores Usuários, devido a problemas na energia todos os trens foram paralisados. Normalização prevista para daqui 30 minutos”.

Felipe levantou a cabeça alguns segundos depois, inerte a situação. Virou-se para a garota ao seu lado e perguntou:

-O que aconteceu? Por que paramos?

-Problemas na energia, ou coisa do tipo. Volta só daqui meia hora. Horário de pico, parece até piada.

-Realmente… justo hoje. – Felipe falava consigo mesmo ao respondê-la.

-Eu não estava com a menor vontade de trabalhar hoje, pelo menos isto é um pretexto, e eu bem que estava afim de pedir as contas… – havia um tom despreocupado demais em sua voz, um narcisismo, uma beleza, e ela sabia dessa beleza, por isso o narcisismo.

Felipe sorriu. E a garota sorriu de volta.

-Desculpe, sempre falo demais… – ela sorriu mais uma vez.

-É só… que eu estava pensando no mesmo.

-O que? Pedir as contas? Acho que as pessoas deveriam ser livres. Você só é livre quando faz aquilo que gosta, e no nosso caso, acredito que não gostamos do que fazemos.

Era como se ela falasse com o nada. Como se palavras de um livro de auto-ajuda romântico saísse de sua boca.

-A verdade é que eu não gosto de fazer nada. A maior parte das pessoas também não, o problema é que eu enxergo que não gosto de nada ao invés só aceitar.

-No que você trabalha?

-Sou esteticista, e você?

-Contador.

-Nossa! Você não parece combinar com algo tão enfadonho.

-Por quê? Não acredito que eu tenha cara de divertido. – ele riu.

-Eu não sei, acho que imagino caras mais velhos com essa profissão. Hm, e eu combino com esteticismo?

-Eu não sei, nunca pensei nesse tipo de coisa…

-Não acho que devêssemos sair de nossos empregos. De qualquer forma, é o que temos. Se tivermos que ser livres, precisamos primeiro encontrar um lugar pra onde ir antes de sair da jaula, não?

Ela era ousada demais, suas palavras o incomodavam, mas o jeito como ela as falava, uma doçura, uma delicadeza, o fazia com que reparasse nela e esquecesse suas palavras.

-De certa forma… faz sentido.

O tempo passou, conversaram, conversaram, ela falava tudo de uma forma muito excêntrica e narcisista, mas ele gostava, pelo tom da sua voz. Ela era igual a todas as garotas bonitas e metidas, mas ela sabia disso e tentava, de alguma forma, ser diferente, e era esse jeito trágico dela que o causava tanto interesse. O trem voltou ao movimento. Eram 8h17 quando chegou ao trabalho. Explicou-se, seu chefe conferiu o itinerário, atestando seu atraso. Tudo ficou bem, Felipe ficou ótimo. O número daquela que não era mais só a garota que conheceu no metrô, o número da Melissa no seu bolso e a promessa de saírem pra tomar um café qualquer dia.

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