Um nós

Fevereiro 2, 2020 § Deixe um comentário

Já fazia muito tempo desde a última vez em que eu o toquei. Não o havia encontrado nem nos meus sonhos. A própria memória parecia distante. Eu finalmente me converti mais uma vez à minha própria essência. Eu queria escrever sobre o amor para vivê-lo, capturá-lo no cerne. Recapitular e descrever o desabrochar, as curvas, as quedas bruscas, a euforia, a doença e a cura.

Eu não queria tê-lo conhecido. Eu não confiava nas possibilidades, nas chances, nos astros, em mim. E fui apenas para desafiar o mau estar e o tédio. Eu não o teria beijado, não teria beijado nenhum, me sentia esterilizada e insensível. Por algum motivo ele achou que podia e devia. Nos beijamos por longos minutos. Tudo cheirava a cerveja, vômito, maconha e cigarro.

O próximo dia não vibrou, mas ele estava lá. Mais uma vez eu driblava a insatisfação dos dias que não passavam com o escapismo cínico da sua presença. Nossas mãos já estavam coladas e nossos beijos não eram raros. Eu sentia uma palpitação boa e saudade e, apesar do ceticismo, me dei ao luxo de sentir.

Nós jogávamos um jogo tímido de provocação orgulhosa. Fumávamos cigarros e bebíamos durante todo o dia, tudo ficava, aos poucos, invisível. Só existíamos em nós e dentro de nós mesmos.

“Eu estou ferrado, já era… é a partir desse ponto que eu sei que eu estou completamente fodido.” – ele disse num desses dias quentes enquanto bebíamos, nos encarávamos e tentávamos parecer inteligentes, tentávamos extrair de nós o que pensávamos ser a versão mais atraente de nós mesmos. Eu sentia tanta falta de procurar em mim o que sentia que tivesse morrido. Ele balançou a cabeça, se entregando, tragou o cigarro e olhou pro lado. Olhei interrogativamente pra ele. “Do que você tá falando?”. “Eu estou me apaixonando por você… a partir desse ponto…” e tragava de novo, mais para conseguir tempo do que para saciar o vício. “Se voce for embora eu vou estar muito na merda”.

Eu estava procurando um sinal. Um único sinal de que tudo aquilo não poderia ser só casual agora. Eu procurava a resposta para o meu flerte, eu ainda estava apenas jogando. Eu não tinha noção de que a comunicação silenciosa se propagava tão abertamente. Eu ainda estava muito longe enquanto ele mais uma vez simplesmente se jogou no mar da confiança cega, quis me amar antes mesmo de eu cogitar o amor, até então eu achava que era só aparência, sensualidade e ego. Jogou em cima de mim um amor que eu ainda sequer sabia conceber como ideia dentro de si mesma. Eu gostava dele porque ele tinha espontaneidade para se arriscar, uma coragem ingênua, um timbre despreocupado e inseguro, uma honestidade estranha e vibrante.

Eu estava disposta, dentro de toda a minha sensibilidade fragilizada, a retribuir o amor. O despreendimento dele fazia tudo parecer fácil, concebível, imprevisível, acessível e inquieto. Eu juro que não procurava por nada, mas soube quando o encontrei. Queria tirar prova das juras, das promessas, dos poemas, das confissões, eu estava desesperada pela perspectiva de que a minha reciprocidade poderia ser forjada e queria me antecipar. Eu tinha medo de saber quem em mim correspondia ao que eu sentia e por quem em mim ele poderia ter se apaixonado. Eu não era completa, as partes de mim flutuavam na minha concepção das coisas. Eu sabia que uma parte de mim poderia amá-lo, mas não todas.

Fechei a caixa dos traumas, naveguei por mares calmos, adiei a dúvida, tomei a dor como certa, precipitei todas as possibilidades na desconfiança cega da perda. Eu sabia que tudo aquilo se transformaria muito em breve. Eu queria a profundidade séria do comprometimento, mesmo sabendo que não poderia suportá-la na fragilidade da minha confiança, as tardes eram boas e até então a instabilidade das minhas percepções não tinham se manifestado diretamente sob as minhas expectativas: tentei o possível para não esperar nada.

Falhei, esperei por ele, meu coração falava por si, ignorava os sinais, o alerta, minha mente me preparava, calculava os danos, especulava com as referências, eu acreditava, na mesma medida, em todas as promessas e em todas as perspectivas de que tudo poderia ser vazio e escasso, mas continuei.

Eu nunca soube quando isso aconteceu exatamente, em que momento no tempo eu dispensei a necessidade de uma antecipação preventiva, tinha ele comigo e sentia em lapsos que a realidade acessível tinha deixado de ser hostil. Eu podia sentir através do seu cheiro, da sua pele, dos seus cabelos, da sua respiração, um senso de existência, de continuidade. Eu sentia que eu podia ser algo além de uma fibra de vida, queria sentí-lo, mesmo quando já não tinha querer. A minha vida por muito tempo se refletiu numa inércia insensível e mórbida. Quando ele estava comigo eu queria tocá-lo, queria me mover em sua direção e queria, efetivamente, continuar querendo-o tanto quanto podia.

Na demonstrações física, podíamos congratular a realidade sem especulações. Qualquer forma de apego ali era visceral. Eu queria estar nele o tempo todo, me cobrir com a existência de um universo onde a contingência da mutualidade era possível. Dentro de mim, eu sabia, ele estava comigo.

O problema, na verdade, sempre esteve na falta. Eu nunca me senti real, nunca senti o outro, nunca soube as limitações da minha credulidade. Vaguei pela minha percepção, me perdi de mim mesma muitas vezes, nunca soube o que era real. Agora eu sinto a falta dele, mesmo as crises de ódio desenfreadas, as dúvidas, as dispensas, a precipitação e o vazio em si mesmo abrem espaço pra essa ânsia canhestra. As mesmas dúvidas que nutro pelos outros, se alimentam de mim mesma. Eu não sei onde eu estou em mim e ele carrega um pouco do referencial de uma parte de mim que é boa.

Eu nem posso imaginar o que é pra ele carregar o peso da credulidade sozinho, me amar ao ponto de acreditar na minha falta de tudo o que sensível. Conseguir captar dentro da minha essência o que o faz me amar, quando nem mesmo eu posso oferecer. Os meus questionamentos sequer se apontam pra ele, partem em função de mim e de quem em mim vai afastá-lo. A minha concepção vive para desmentir a realidade quando ela é capaz de me proporcionar qualquer bem. Eu fico quietinha… deixo os pensamentos destruírem a minha expectativa pela fatalidade. Nós conversamos, ele deixa, vai e volta, as minhas profecias se auto-cumprem, é a realidade má ou a minha construção dela pela sabotagem. Eu acredito.

Estamos mais uma vez juntos, a tempestade passa, eu perco a vontade mais uma vez, perco a sensibilidade, perco os pontos, abro mão e me volto pro vazio de mim mesma. Assumo o vazio de todo o resto, a inaptidão, o cansaço. Me sinto incapaz de sentir e saber o que eu estou sentindo, transmitir e retribuir, só é plausível quando é espontâneo e eu, muito cedo faço as conjecturas piores, me fecho em mim mesma e espero. Ele volta.

Ele sempre volta, sempre voltou até agora.

Eu não sei quantas vezes mais isso vai acontecer. Quantas vezes mais eu vou partir o meu crânio, desassociar minha existência, flutuar no limbo e viver a morte. Eu gosto de tê-lo por perto, gosto que ele me busca nos confins da minha mente quando eu me isolo. Gosto de sentir sua respiração, gosto de perceber a sintonia que criamos juntos. Consigo gostar um pouco de mim quando estou com ele. Gosto da forma natural como, juntos, o nosso sentimento se alinha num só. Como juntos, nós nos alinhamos em um só e percebemos a nós mesmos um no outro.

26 de novembro Godói

Novembro 27, 2019 § Deixe um comentário

Nesse exato momento eu sei que eu deveria estudar, ou dormir. Dormir e estudar. Tudo estava concentrado pulsinalinimemente em uma série de coisas só. Meu aniversário, meu relacionamento conturbado, minhas provas, meus questionamentos internos, meu sono para garantir uma postura num trabalho que dependia diretamente com a minha capacidade de pagar meu teto. O teto.

Eu sentei naquela mesa com a promessa interna e externa de melhorar. Partindo do pressuposto de que eu nao estava bem e o precisava fazê-lo o mais rapidamente. É o pressuposto aqui assumido. Eu conseguiria alcançar esse resultado a partir da interação mais intensa com aqueles a meu redor. Uma onda de dor e aflição me atingiu. Tantas perguntas sobre a minha disposição, meus medo, minha auto-estima. De qualquer forma, eu sabia que precisava estar ali naquele momento. Apesar de precisar estudar e dormir.

O Rafael e a Marcela vieram até o meu quarto ontem a noite. Uma mistura de narcisismo, autopiedade, anulação interna, desinteresse e ansiedade me levou a atraí-los aqui da forma mais desesperada e covarde que pude. Eu não faço ideia do que quero ou preciso. Estou no limbo da minha propria existência, nao quero nada e nem tenho perspectivas de querer querer. Mas eu os queria ontem. Queria alguém. Mais uma vez um narcisismo que o budismo me disse, fazia parte de uma tóxica associação pretendida com o ego. Eles vieram.

E depois de suas vindas, eu sabia que precisaria estar naquela mesa hoje.

O Max, o intercambista alemão, a Gi, o namorado italiano dela, o Rafael, o Ale, outro italiano, e o Matheus, brasileiro, mas professor de alemão estavam aqui. Mais tarde chegou a Jo, atriz e barista e também o Demetrius, que interepretara o Zorro, mas que também havia cursado Biomedicina. Estavam todos ali. Eu analisava a situação como passível de precificação. Eu percebia, em termos analíticos, a importância daquilo, daquele momento, daquela reunião. Eu entendi a importância inicial que me levou a estar ali e não dormindo, ou estudando.

A importância que eu tive desse momento não tem a ver com a percepção afetiva da importância dos laços na construção da nossa identidade e da formação de uma perspectiva que nos faça motivar a vida em torno. Não. Eu percebi que a importância daquilo residia em ter espaço para perceber os sofrimentos internos pelos quais ninguem está impune.

Eu via as pessoas tentando competir por atenção ou aprovação, ficarem em silêncio, persistir, abrir mão. As vezes rir, cintilar, às vezes, esperar passar.

A existência em si é assim, cheia de falhas, defeitos e detalhes.

É uma continuidade árdua e ininterrupta. Brutal e incapacitante. Sim. Para todos.

A morte da razão e de onde

Novembro 20, 2019 § Deixe um comentário

Já fazia algum tempo, como de praxe, que eu me programava para tirar algum tempo para dizer algo sobre alguma coisa. Tem tanta coisa na minha cabeça, é difícil organizar os meus pensamentos quando eu quero me atentar a prendê-los. Me sinto impotente, como que sugada dentro da minha própria necessidade de me encontrar e de me afastar do eu.

Na maior parte do tempo eu sinto como se nada fizesse realmente sentido ou como se a própria ideia de significado tivesse ficado distante de qualquer materialidade que se aplique a mim mesma, ao que eu busco, ao que eu sinto, ao que eu sou capaz de captar como real.

Na maior parte do tempo eu estou com ânsia, minhas costas doem e o meu coração se faz independente da minha necessidade sanguínea. Eu tenho a impressão de que todas noções que cultivei estão obsoletas ou mortas. Eu me sinto um verme e quero me comportar como um verme, entro num profundo dilema de dor provocada e dor consequente. O que me faz me doente não me mata só os efeitos colaterais.

É só voltar a procurar a ordem no caos que tudo volta a mais uma vez deixar de ter sentido. Eu só consigo sobreviver enquanto estou profundamente dopada da minha própria existência. Se eu passo a me debruçar demasiadamente nela, me perco no nojo da não aceitação, a rejeição prévia, o desprezo.

Eu sinto como se mais nada tivesse cheiro, gosto, textura, interesse. E ainda assim… eu consigo me sentir profundamente o desapontamento da decepção mais vulgar. Eu me tornei uma força motora pra fora de mim mesma, com o intuito de desacreditar.

Passo metade do tempo arruinando as minhas perspectivas fracas e a outra metade desacreditando que as possuo.

Anestesia

Setembro 30, 2019 § Deixe um comentário

Eu sempre tive a certeza da inadequação, do sentimento profundo de falta, da melancolia, do vazio das coisas, da dor imbuída em tudo o que há vida e na incapacidade de se manter de tudo o que já está morto.

Mas de um ano pra cá, eu perdi a última fina sombra espectral que me fazia ser quem eu sou e tenho a mais séria certeza de já estar morta, ou para dizer o mínimo, motorizada.

Algumas das minha dores permanecem, eu perambulo pelas vias astrais fingindo demência, mostrando os dentes e expelindo saliva. É muita pretensão dizer, mas eu já entendo o Saturno na sala de jantar. No final das contas nada nunca deixou de ser o que é e quem o percebeu fez questão de apresentar a si mesmo a prova viva de que a loucura pode ser encontrada em si no mundo.

Eu vi no Goya, eu vi no cão perambulante miserável e grotesco do Henry Miller, eu vi nos cigarros do Munch, eu vi nos meus próprios olhos quando a dor e a ferida já não mais feriam… nem preocupavam. Quando se importar perdeu o sentido, quando a fé se foi junto com a verdade e com a higiene e com vaidade.

Eu queria abraçar aos feridos, disse a mim mesma um dia. Agora, com 24 anos parece que tudo o que eu fiz com 17 nesse site era precário e eu sei que ainda tenho muitas outras mortes pela frente. A morte do desejo, do pudor, do meu próprio senso ético, do meu próprio respeito.

Eu vi com os meus próprios olhos o beijo ser a véspera do escarro, eu vi a maldade corroída corroendo aos outros, expurgando chorume dos olhos, coisa que já nem sei ser lágrima ou veneno. Quanto mais feridos, ferem, e aqueles que não estão feridos ferem também.

Eu saí da contestação e já não faço mais os cálculos dos feridos. Tanto faz, ricos ou pobres, podres ou vivos, todos na sua medida comprometidos com o mau e coniventes com o comprometimento dos outros. Uns se fazem, se deixam, se levam pela psiquê das massa mortas que dormem, como as ervas, sobre as hortas, na esteira igualitária do teu leito[1]. Outros ali cavam, o suicida alegra que vê significado nas suas ambições mórbidas, faz da morte o motivo da vida e nesse aspecto até consegue encontrar o sonhado significado das coisas.

Eu estou cumprindo minhas funções fisiológicas, apenas. Eu quero suar no sexo, me encher de comer e conseguir cagar. Não estou sã, nem carrego a percepção da vida e das coisas, da mesma forma como Céline, Varda, Goya, Anjos, Guerra, Stendhal, Bacon jamais o fizeram, eu acho apenas que a percepção da falta de tentativa amortece, não mata, amortiza, paralisa. Deixa a gente de frente com o horror, aceita, confronta, se masturba e dorme. Acorda no dia seguinte e lê, vira a página, vai se anestesiando, vai colocando o Saturno na sala de jantar e pára de esperar grandes coisas da vida, se entrega, sobrevive, abre mão dos sonhos, da vaidade, faz que nem o Schubert e larga as partituras por aí, não quer mais amor, nem reconhecimento nem mesmo a verdade, só vive no paralelo da vida e da morte através da percepção dos tempos e das boas drogas diárias.

[1] Augusto dos Anjos, poema Os Doentes

Sobre Saturno na Sala de Jantar:

Jónsi e Björk

Setembro 17, 2014 § Deixe um comentário

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Nunca o bastante, imagino o que eles conversam e se conversam em islandês entre eles, se são bons amigos ou só admiradores. Imagino se o rosto da Björk se contorce em um sorriso ironico ou um olhar de indignação.  Acho que o sonho da minha vida ainda é ver (ouvir), um álbum feito só pelos dois.

Hjartað Hamast

Outubro 14, 2013 § Deixe um comentário

O coração golpeia,
Como sempre, mas desta vez
Fora do ritmo com o tempo
Perdido e esquecido em casa
Prestes a explodir pelo nariz
Volto-me ao suor das cobertas
Observo a ferrugem que cresce em mim
Que come lá embaixo da concha
Eu paro em pé, tonto / atordoado
Eu me esfarelo
Ando em círculos
Ando após mim mesmo
Tiro toda minha roupa
E completamente nu
Acordado mas posto para dormir
Eu não durmo nem o mínimo

 

Refrão:
Eu falo alto e viajo por dentro de mim mesmo
Vasculhando procurando por vida por um instante que seja
Fico parado em meu lugar
Com a esperança como amiga e ganho um tempo
Procuro por um começo perfeito
Mas ele se torna um desapontamento

 

O coração pára
Não se mexe
Eu insiro um marcapasso (que engulo e escondo)
Encontro um cabo de ligar (e me ligo)
Vejo tudo dobrado (duplo escuro)
Falha do sistema (o cérebro recusa)
Continuo a procurar (…)
Incontrolável (informação)
Eu tenho que alimentar (me alimentar)

Expectativa Inversa

Outubro 14, 2013 § Deixe um comentário

Eu sei que já agora eu estou fazendo parte do processo inverso de um fluxo constante. Eu sinto que estou voltando para onde saem todas as coisas sem a razão justificável para o desastre. Existe a estabilidade aqui, agora, para tudo o que não pode se manter por fora à consciência. Estou sentindo minhas inflamações explodirem, cada uma delas, uma certeza inominada. Estou possessa da própria carne. Fiz do meu corpo o santuário de uma religião desconhecida. Me enterrei em mim pelos sentidos. E você, mil vezes, veio me  trazer flores. Ainda não sei que parte de mim está morta,